Lipodistrofias congenitas e adquiridas

O termo lipodistrofia designa qualquer alteração trófica do tecido gorduroso.
O acúmulo gorduroso é denominado lipo-hipertrofia ou lipo-hiperplasia, e a escassez de gordura, lipo-hipotrofia ou lipoatrofia.

Desde a década de 1990, os pacientes infectados pelo vírus HIV ou já portadores da síndrome da imunodeficiência adquirida (HIV/AIDS) têm recebido terapia anti-retroviral combinada de alta potência (TARV, ou em inglês, highly active antiretroviral therapy – HAART), com conseqüente aumento da expectativa de vida.

A lipodistrofia tem sido observada nesses pacientes, sendo associada a fatores tanto do hospedeiro como da infecção e do tratamento anti-retroviral. Nesses pacientes são encontradas alterações corporais, faciais e metabólicas, isoladas ou associadas. Desconhece-se, ainda, se essas alterações representam entidades distintas ou se resultam de um único processo patológico.

Tratamentos e técnicas para minimizar as marcas estigmatizantes da lipoatrofia têm sido estudados. As substâncias utilizadas nas técnicas de preenchimento de sulcos e rugas faciais podem ser classificadas em absorvíveis ou inabsorvíveis, biodegradáveis ou não biodegradáveis, e orgânicas ou inorgânicas.

O tratamento e reconstrução destas faces com o preenchimento de polimetilmetacrilato (PMMA), que é um implante acrílico injetável que utiliza micro-esferas de polímero sintético suspensas em veículos colóides, mostrou-se efetivo na melhora da auto-estima, auto-imagem e melhora de sintomas depressivos nos portadores desta síndrome, concluindo-se então uma significativa melhora na qualidade de vida destes.LIPODISTROFIA ROSTO

O Ministério da Saúde aprovou em portaria de janeiro de 2005 o uso desse implante para a correção da lipoatrofia facial nos pacientes com infecção pelo HIV/AIDS, e que sejam usuários das medicações anti-retrovirais. O Sistema Único de Saúde (SUS) cobre os custos dessa medicação para essa população em hospitais e instituições credenciadas (Portaria nº 2582/GM, de 2 de dezembro de 2004). Esta medida ainda não foi aprovada e liberada para utilização em outras regiões anatômicas.

A lipoatrofia de face e lipoatrofia glútea afetam cerca de 50% dos pacientes infectados pelo HIV, havendo, então, a necessidade de tratamento efetivo, seguro e de baixo custo para essa alteração estigmatizante e geradora de perturbações psicológicas. 

A anatomia da região glútea é composta por grande massa muscular, um coxim gorduroso que permeia todos os níveis musculares, e que compõe também integralidade do que denominamos sulco interglúteo. Toda esta massa gordurosa e muscular estará presente em maior ou menor quantidade conforme gênero, idade, condição hormonal, atividade física e outros.

gluteos

Recentemente a atenção dada a região glútea exigiu que fosse criada para uma população geral uma classificação de ptose, porém o acometimento glúteo na lipodistrofia do soropositivo para HIV/AIDS diferentemente da ptose, pode gerar conseqüências orgânicas locais, como ulceras de pressão e/ou exposição perineal grave.

 

A distribuição de gordura corporal é diferente em ambos os sexos.costas

De uma forma simplista, pode-se dizer que o acumulo de gordura no sexo feminino predispõe um maior coxim gorduroso em membros inferiores, região do quadril e glúteos, enquanto que a população masculina tem como padrão de distribuição de gordura o tórax, membros superiores e acúmulos viscerais, estes últimos correlacionados com as dislipidemias e com maior probabilidade de doenças cardio-vasculares.

Por isso que é dito que no padrão lipodistrofico do soropositivo para HIV/Aids, as mulheres sofrem uma androgenização do padrão de distribuição de gordura, por perderem a massa gordurosa do quadril, coxim glúteo, membros inferiores, e em muitas, aumento do volume gorduroso visceral.

Cresce a necessidade de uma classificação para os diferentes estágios da lipoatrofia glútea decorrente do uso de antirretrovirais em pacientes soropositivos para HIV/AIDS, para que se possa identificar as possibilidades terapêuticas para as devidas correções desta região anatômica.

As possibilidades terapêuticas ficam por conta de repararmos a região glútea com preenchimento local, seja ele com material autólogo (lipoenxertias) ou materiais sintéticos (próteses glúteas ou outros tipod de preenchedores teciduais, como o PMMA).

 

Dr. Mario Warde
Cirurgião Plástico